segunda-feira, 16 de julho de 2012

3ª Jornada Pedagógica


O MENINO E EU: CONSIDERAÇÕES SOBRE A BRINCADEIRA
O poema, sem data de publicação, trazido na epígrafe deste texto, eu o escrevi em 2007 no dia em que nasceu meu sobrinho. Muitos etnógrafos que trabalham com crianças têm privilegiado a observação de filhos, sobrinhos, parentes – pessoas próximas em cujo universo já estão inseridos. Essa definição por um campo que não requer um minucioso planejamento e cuidadosa inserção favorece o aparecimento, desde logo, de condutas as quais um pesquisador só teria acesso após um longo tempo de trabalho. No entanto, observar o que está demasiado próximo é deveras difícil e requer um rigor ainda maior e um cuidado profundo na interpretação de conteúdos nos quais o pesquisador está diretamente envolvido enquanto pai,mãe, familiar. Tais papéis e as relações neles implicadas atravessam a tarefa da pesquisa,inevitavelmente.


                               
O trabalho etnográfico traz ao pesquisador o desafio de colocar-se na perspectiva do outro, de calçar seus sapatos, de olhar por seus olhos. Tal desafio já é em si mesmo portentoso quando nos propomos, sendo adultos, a habitar e compreender o universo das crianças. A colocarmo-nos em sua perspectiva e, para tanto, sermos aceitos como um de seus pares. Assumir a mirada dos próprios filhos e parentes, conhecer, habitar seus lugares,entretanto, não sei se é possível. O que pretendo aqui é menos, muito menos que isso.
Por vício de ofício e por amor à escrita fui registrando alguns dos episódios que presenciei ou vivenciei com meu sobrinho. Essa escrita, produzida para consumo íntimo, não pretendia vir a público. Entretanto, na medida em que nos preparávamos para entrada em campo em uma pesquisa sobre a brincadeira com crianças de 0-6 anos, desta caderneta pessoal começou a emergir o texto e as imagens que ilustravam minhas falas no contexto de grupos de estudo e salas de aula. Assistir aos primeiros jogos imaginários de meu sobrinho e acompanhar sua evolução passou então da condição de registro íntimo de afeto à provocação intelectual que obrigava a repensar a brincadeira e o jogo imaginário.
O tema nos levou a descortinar velhos textos em novas traduções na tentativa de uma aproximação maior das idéias de Vigotski sobre a brincadeira e a imaginação. Nesse sentido, muito devemos à cuidadosa tradução de Zoia Prestes que tem permitido a depuração de conceitos fundamentais na obra de Vigotski que, por erros de tradução e censura ideológica chegaram a nós bastante distorcidos de seu sentido original.
A observação privilegiada e as descrições de situações de brincadeira vivenciadas com meu sobrinho entre seus dois e três anos serviram a nosso grupo de pesquisa como um estudo exploratório e emprestou cor e movimento aos constructos teóricos e é nessa condição que eles aparecem aqui. Como uma preparação do nosso olhar antes da entrada em campo. Tão somente. Mas isso, definitivamente, não é pouco.

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